Nossos Visitantes

Contador de visitas
Mostrando postagens com marcador poema. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador poema. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, 17 de junho de 2013

Admirável Operário Em Construção



Apesar do caráter político que o blog assumiu recentemente, não pretendo fugir à minha proposta anterior de divulgação poética, e gostaria de aproveitar para trazer a vocês, leitores, um poema talvez não muito conhecido, porém não menos importante do nosso querido Poetinha, Vinícius de Moraes.
Publicado em 1959, mas talvez ofuscado por outras obras, como os famosos "Soneto de Fidelidade" e "Soneto de Separação", "Operário Em Construção", nos traz em verso, deixando muita coisa a se pensar, uma profunda critica social.
É, a meu ver, uma composição incrível, que deve ser compartilhada.
Conta a história de um simples trabalhador, pobre e humilde - como diz o nome, um operário - que nada sabia além de exercer seu ofício, duro e sofrido, que um dia se dá conta de que toda a riqueza e luxo nos quais vivia seu soberbo patrão, provinha de sua força de trabalho. Tomado por uma nova percepção do mundo, este recusa-se a voltar a ser um homem alienado, e portanto, ignorante, como era antes, e espalha sua nova visão entre os colegas, desagradando o patrão, que nem mesmo com a violência ou a promessa de riquezas imensas, consegue dobrá-lo, como pode-se perceber neste trecho:

"Sentindo que a violência
Não dobraria o operário
Um dia tentou o patrão
Dobrá-lo de modo vário.
De sorte que o foi levando
Ao alto da construção
E num momento de tempo
Mostrou-lhe toda a região
E apontando-a ao operário
Fez-lhe esta declaração:
- Dar-te-ei todo esse poder
E a sua satisfação
Porque a mim me foi entregue
E dou-o a quem bem quiser.
Dou-te tempo de lazer
Dou-te tempo de mulher.
Portanto, tudo o que vês
Será teu se me adorares
E, ainda mais, se abandonares
O que te faz dizer não.

Disse, e fitou o operário
Que olhava e que refletia
Mas o que via o operário
O patrão nunca veria.
O operário via as casas
E dentro das estruturas
Via coisas, objetos
Produtos, manufaturas.
Via tudo o que fazia
O lucro do seu patrão
E em cada coisa que via
Misteriosamente havia
A marca de sua mão.
E o operário disse: Não!

- Loucura! - gritou o patrão
Não vês o que te dou eu?
- Mentira! - disse o operário
Não podes dar-me o que é meu."

Alguma semelhança com algum texto conhecido? Se sim, saibam que não é coincidência. O trecho refere-se claramente a uma passagem bíblica:

E o Diabo, levando-o a um alto monte, mostrou-lhe num momento de tempo todos os reinos do mundo. E disse-lhe o Diabo:
- Dar-te-ei todo este poder e a sua glória, porque a mim me foi entregue e dou-o a quem quero; portanto, se tu me adorares, tudo será teu.
E Jesus, respondendo, disse-lhe:
- Vai-te, Satanás; porque está escrito: adorarás o Senhor teu Deus e só a Ele servirás.
Lucas, cap. V, vs. 5-8.

Vinícius deveria ter um bom motivo para escrever algo assim, e acredito que a nova visão que o operário contemplava era simplesmente algo que todo trabalhador um dia deve ter: a consciência de que seu trabalho tem força, pois a outra parte da sociedade depende de seu esforço.
O operário de Vinícius dava-se conta disso, e foi retaliado de várias formas, pois seu patrão sentiu-se ameaçado com essa repentina tomada de consciência. Mas este fato não se restringe a apenas um trabalhador, em apenas uma obra. Abrange, simbolicamente, toda uma nação de trabalhadores brasileiros. Tal nação não poderia ser melhor representada, senão por uma obra de Tarsila do Amaral:


Por isso, senti esta necessidade tão grande de compartilhar com vocês um de meus poemas preferidos:

Operário em Construção

Era ele que erguia casas
Onde antes só havia chão.
Como um pássaro sem asas
Ele subia com as casas
Que lhe brotavam da mão.
Mas tudo desconhecia
De sua grande missão:
Não sabia, por exemplo
Que a casa de um homem é um templo
Um templo sem religião
Como tampouco sabia
Que a casa que ele fazia
Sendo a sua liberdade
Era a sua escravidão.

De fato, como podia
Um operário em construção
Compreender por que um tijolo
Valia mais do que um pão?
Tijolos ele empilhava
Com pá, cimento e esquadria
Quanto ao pão, ele o comia...
Mas fosse comer tijolo!
E assim o operário ia
Com suor e com cimento
Erguendo uma casa aqui
Adiante um apartamento
Além uma igreja, à frente
Um quartel e uma prisão:
Prisão de que sofreria
Não fosse, eventualmente
Um operário em construção.

Mas ele desconhecia
Esse fato extraordinário:
Que o operário faz a coisa
E a coisa faz o operário.
De forma que, certo dia
À mesa, ao cortar o pão
O operário foi tomado
De uma súbita emoção
Ao constatar assombrado
Que tudo naquela mesa
- Garrafa, prato, facão -
Era ele quem os fazia
Ele, um humilde operário,
Um operário em construção.
Olhou em torno: gamela
Banco, enxerga, caldeirão
Vidro, parede, janela
Casa, cidade, nação!
Tudo, tudo o que existia
Era ele quem o fazia
Ele, um humilde operário
Um operário que sabia
Exercer a profissão.

Ah, homens de pensamento
Não sabereis nunca o quanto
Aquele humilde operário
Soube naquele momento!
Naquela casa vazia
Que ele mesmo levantara
Um mundo novo nascia
De que sequer suspeitava.
O operário emocionado
Olhou sua própria mão
Sua rude mão de operário
De operário em construção
E olhando bem para ela
Teve um segundo a impressão
De que não havia no mundo
Coisa que fosse mais bela.

Foi dentro da compreensão
Desse instante solitário
Que, tal sua construção
Cresceu também o operário.
Cresceu em alto e profundo
Em largo e no coração
E como tudo que cresce
Ele não cresceu em vão
Pois além do que sabia
- Exercer a profissão -
O operário adquiriu
Uma nova dimensão:
A dimensão da poesia.

E um fato novo se viu
Que a todos admirava:
O que o operário dizia
Outro operário escutava.

E foi assim que o operário
Do edifício em construção
Que sempre dizia sim
Começou a dizer não.
E aprendeu a notar coisas
A que não dava atenção:

Notou que sua marmita
Era o prato do patrão
Que sua cerveja preta
Era o uísque do patrão
Que seu macacão de zuarte
Era o terno do patrão
Que o casebre onde morava
Era a mansão do patrão
Que seus dois pés andarilhos
Eram as rodas do patrão
Que a dureza do seu dia
Era a noite do patrão
Que sua imensa fadiga
Era amiga do patrão.

E o operário disse: Não!
E o operário fez-se forte
Na sua resolução.

Como era de se esperar
As bocas da delação
Começaram a dizer coisas
Aos ouvidos do patrão.
Mas o patrão não queria
Nenhuma preocupação
- "Convençam-no" do contrário -
Disse ele sobre o operário
E ao dizer isso sorria.

Dia seguinte, o operário
Ao sair da construção
Viu-se súbito cercado
Dos homens da delação
E sofreu, por destinado
Sua primeira agressão.
Teve seu rosto cuspido
Teve seu braço quebrado
Mas quando foi perguntado
O operário disse: Não!

Em vão sofrera o operário
Sua primeira agressão
Muitas outras se seguiram
Muitas outras seguirão.
Porém, por imprescindível
Ao edifício em construção
Seu trabalho prosseguia
E todo o seu sofrimento
Misturava-se ao cimento
Da construção que crescia.

Sentindo que a violência
Não dobraria o operário
Um dia tentou o patrão
Dobrá-lo de modo vário.
De sorte que o foi levando
Ao alto da construção
E num momento de tempo
Mostrou-lhe toda a região
E apontando-a ao operário
Fez-lhe esta declaração:
- Dar-te-ei todo esse poder
E a sua satisfação
Porque a mim me foi entregue
E dou-o a quem bem quiser.
Dou-te tempo de lazer
Dou-te tempo de mulher.
Portanto, tudo o que vês
Será teu se me adorares
E, ainda mais, se abandonares
O que te faz dizer não.

Disse, e fitou o operário
Que olhava e que refletia
Mas o que via o operário
O patrão nunca veria.
O operário via as casas
E dentro das estruturas
Via coisas, objetos
Produtos, manufaturas.
Via tudo o que fazia
O lucro do seu patrão
E em cada coisa que via
Misteriosamente havia
A marca de sua mão.
E o operário disse: Não!

- Loucura! - gritou o patrão
Não vês o que te dou eu?
- Mentira! - disse o operário
Não podes dar-me o que é meu.

E um grande silêncio fez-se
Dentro do seu coração
Um silêncio de martírios
Um silêncio de prisão.
Um silêncio povoado
De pedidos de perdão
Um silêncio apavorado
Com o medo em solidão.

Um silêncio de torturas
E gritos de maldição
Um silêncio de fraturas
A se arrastarem no chão.
E o operário ouviu a voz
De todos os seus irmãos
Os seus irmãos que morreram
Por outros que viverão.
Uma esperança sincera
Cresceu no seu coração
E dentro da tarde mansa
Agigantou-se a razão
De um homem pobre e esquecido
Razão porém que fizera
Em operário construído
O operário em construção.  


Vinícius de Moraes

terça-feira, 18 de dezembro de 2012

Janela dos Olhos


Janela dos Olhos



Janelas tem algo mágico:
Pela janela que olho agora
Vejo um céu azul
E uma construção que vigora.

A vida é uma casa,
De compridas paredes amarelas:
Em cada parede, dos quatro lados,
Se estendem um montão de janelas.

Tem gente que numa delas,
A que aponta para o sul,
Vê uma revoada de pássaros
Num céu límpido e azul.

Outros rostos sem sorriso
Veem nas janelas do norte
Nada além de um mundo cinza
No choro da chuva forte.

Há quem veja em sua janela,
O olhar cansado e sofrido,
Nada de importante,
Um vazio sem sentido.

Em outras janelas se vê
Uma vitória vigorosa
Em cada diz conquistado
Com luta corajosa.

A casa, a janela dos olhos,
Lembranças de como enxergamos
O mundo ao redor
E a vida que levamos.

É que cada um tem sua janela,
Vê desse ou daquele jeito
E fora da casa, para alguns,
O mundo pode ser perfeito.

Lethycia Dias
Goiânia, 29 de outubro de 2012

quinta-feira, 8 de novembro de 2012

Não Me Faça Parar de Escrever!

-->

Não Me Faça Parar de Escrever


Não me faça parar de escrever!
Que outra coisa não quero fazer,
Não sei e nem vou aprender
Outra coisa que não conhecer
Pelo papel o que não posso dizer
Pois quem ouvisse não iria entender.
Se hoje todos nascemos por nascer,
Quero então diferente ser
Ir e dar meia-volta volver
Contemplar o mundo e crescer,
Ver o fascínio que ninguém pode ver
Da vida do próximo e depois perceber
Que para isso não me basta só ler
Por isso tenho que sentir e viver
E a fantasia do verbo fazer
E que ninguém mais venha me interromper.
Não me faça parar de escrever!
Ou o colorido da vida vou perder
Tenho que seguir até não mais poder
Até o limite minha mão doer
Até das palavras a cabeça se encher
Até o coração não mais bater
Até a alma de vez enlouquecer...
Só vou parar quando morrer!

Lethycia Dias
Goiânia, 22 de outubro de 2012

sexta-feira, 12 de outubro de 2012

Desabafo




Desabafo


Ela é o meu reflexo:
Olhando-a como lagoa cristalina
Vejo todo o meu espírito velho
Em corpo de menina.

Ela é meu ataque e defesa
Fruto de um silêncio cruel e devastador
Quando me isolo do mundo
Semeando ódio ou amor.

Tenho dependido dela exclusivamente,
Só Deus sabe o quanto –
Ela me acolhe num abraço
E assim não caio no pranto.

E se nele eu acaso cair
Com um círculo o papel se manchará,
E saberão que não estou mentindo
Pois uma prova haverá.

Nessa dor em que me encontro
Ela vem como o grito mais profundo,
Em agonia um desabafo
Da minha revolta com o mundo.

Lethycia Dias,
Goiânia, 10 de outubro de 2012

sábado, 29 de setembro de 2012

Quarto Vazio



Quarto Vazio





Eis que na primeira aurora do dia
Uma silhueta se remexe no leito
– para buscar sua inspiração
Desperta o eterno insatisfeito.

Os raios de sol não o acolhem,
Ele se identifica mais com a lua;
Fala com ela no início da noite
Se declarando à musa sua.

É ela quem lhe põe as idéias na cabeça
Em noite fresca e pouco iluminada
Desde a crítica ao mundo louco
Até o soneto para a amada.

Mas a lua é a única,
Que outros amigos ele não tem;
Ela o compreende
Pois se sente sozinha também.

Não há nada de atrativo ou bonito
Em escrever sobre este mundo sombrio:
A vida de um poeta
É nada mais que um quarto vazio.

Lethycia Dias
Goiânia, 24 de setembro de 2012

terça-feira, 25 de setembro de 2012

O Tempo




O Tempo


O tique-taque das horas
e o vai-e-vem interminável dos dias...
Ah, se pudesse o tempo morria!
Entediar-se deve ser fácil,
que tudo se repete,
tudo passa e repassa,
e é sempre igual
e o tempo, indivíduo infernal!

O tempo são versos infinitos,
que vêm não se onde
e vagueiam sem destino.
O tempo tem a alma de um menino!
Ele engana os homens que o medem
com a maior naturalidade.
O tempo é incerto e impreciso
zomba de todos nós com um sorriso!

Lethycia Dias
Goiânia, 21 de setembro de 2012